Olho Marinho


No centro Oeste, entre Óbidos, Caldas da Rainha e Peniche, Ines de Castro, rainha consorte, tomou banhos numa nascente de água salina para tratamento da sua pele e olhos nos finais do século XIV.

Denominada de Olho Marinho a nascente e a localidade é uma das muitas fontes de águas minerais e termais conhecidas desde sempre pelos locais e descobertas e promovidas ao longo de séculos por curandeiros, médicos, enfermos, nobres, povo, burgueses e até artistas.

As águas que ai brotam do chão e das encostas choveram frias nos cumes das serras de Aires e Candeeiros há muitos séculos e tardaram em regurgitar mornas, cheias de sais e com cheiros sulfurosos, depois de cavernosos caminhos nas profundidades, chegando quase aos magmas e atravessando as ocultas bolsas de sais e minérios criadas num outro tempo geológico anterior aos dinossauros da Lourinhã.

Á superfície e viajando velozmente pela A8, pela A1 ou por uma outra qualquer vereda local é inimaginável como debaixo dos nossos pés viajam lentamente durante séculos, as gotas de água que pingaram dos tectos das grutas de Aire ou de Alvados, até surgirem nas termas das Caldas da Rainha, nas salinas de Rio Maior ou nos Olhos de Água do rio Alviela.

Cem anos mais tarde de Inês de Castro tomar banhos no Olho Marinho a rainha Dona Leonor em viajem para Norte surpreendia-se com gentios banhando-se em lamas e águas tépidas de cheiro podre procurando cura para as suas maleitas de lépis, frialdades e respirações sibilantes.

Hoje são respectivamente designadas como doenças de Hansen-lepra, dermatite, psoriase, reumático-esqueléticas, bronquites e sinosites, embora o tratamento da lepra ali fosse um engano.

Não é unanime a opinião entre os médicos sobre a cura pelas águas, mas seguramente são consensuais sobre o alivio duradouro dos sintomas e muitas mais doenças se têm vindo juntar à lista.

A rainha Dona Leonor, grande promotora das Misericórdias portuguesas, ordenou que no local se erguesse o primeiro hospital termal do mundo.

Antes já existiam termas e também já existiam hospitais, mas não se vira antes, juntar os dois e menos ainda, com acesso público a todos sem nenhuma distinção, o que se continua respeitando até hoje.

Nasceu a futura cidade das Caldas da Rainha.

A rainha Dona Leonor nas suas futuras deslocações às Caldas pernoitava na quinta dos Mosqueiros na localidade das Gaeiras ao lado de Óbidos. Integrada hoje na Quinta das Janelas.

O médico pessoal do rei D João V e provedor do Hospital Real das Caldas da Rainha , Dr. António Pinheiro, escolheu também viver nas Gaeiras.

As termas das Gaeiras localizadas na Quinta das Janelas são há décadas uma promessa de autarcas, de investidores, de vontade, de, e de, e são por agora propriedade da Associação Nacional de Farmácias. Recentemente terão sido vistas máquinas de perfuração e sondagens de água à entrada, mas na vila poucos sabem falar sobre isso, ou a que sabem ou cheiram essas águas.

A norte pouco além de Alcobaça temos mais uma fonte de águas termais sem uso ou acesso público, mas, supostamente, por motivo da pandemia de covid.

As termas da Piedade, ao lado de um bonito e elegante hotel e SPA, contrastam nas portas, fechadas ás abertas, e com chão empoeirado ao encerado entre a pequena casa da fonte termal e o grande edifício do hotel e SPA.

Também na cozinha do mosteiro de Alcobaça faltou a água no regato onde os monges apanhavam peixes para as suas refeições. Aqui a água do regato, que a jusante passa nas termas da Piedade, não era termal e a sua falta temporária deve-se supostamente ás obras de construção de um novo hotel.

Mas a grande e muito maior fonte de água salina está espraiada a poucos quilómetros, de todos estes sitíos.

É a costa Atlântica.

Partindo de Óbidos, seguindo as ribeiras para Oeste, descendo pela albufeira da barragem de São Domingos, próxima de Atouguia da Baleia, chegamos ao porto de Peniche e temos o mar e a Berlenga à nossa frente.

Seguimos ao longo da costa para Norte, passamos ao largo do Baleal e entre as florestas de pinheiros e eucaliptos, pomares de pêras e vinhas das rotas do Oeste chegamos ao largo do Sul da Foz do Arelho.

A bombordo (à esquerda) temos o mar, a estibordo (à direita) não vemos o fim à grande lagoa de Óbidos. Fazemos uma circum-navegação à lagoa e retornamos às arribas da costa atlântica.

Continuamos seguindo a costa para norte e desaguamos na baia de São Martinho do Porto.

Se persistirmos nesta navegação de costa à vista, fazemos a estrada do Atlantico e chegamos à Nazaré. Nesta rota avistamos e falamos com viajantes, habitantes, surfistas, banhistas, ciclo-turistas, caminhantes, desportistas, jovens, pensionistas e...

Há muito espaço, muita natureza, muita calma e silêncio.

Mas só com termas, só tende para virar seca.


Onde ficar? Há sitio para todos, como é para todos o acesso às termas das Caldas da Rainha.

Que comer? Recomenda-se as enguias, os sargos e os robalos da lagoa, os peixes do mar aberto, passando pelos bivalves até ao marisco. Mas também, aqui e ali, servem pizzas e hambúrgueres.

Que beber? Estão obviamente na Rota vínica do Oeste, mas cada familia da região tem uma receita de licor, e água não falta.


Quando ir? Vão, nem que chovam picaretas. Ameaças não faltam, incluindo as imprevisíveis mudanças climáticas. Ainda não neva regularmente nem o deserto chegou tão perto.


Que visitar? Se precisam de mais ainda, há centenas de tabuletas castanhas apontadas para, museus, mosteiros, castelos, parques, trilhos e demais.

Que fazer? Se ainda não estiver desapressado, há miles de trilhos para caminhantes, dezenas de escolas de surf, passeios de barco a motor e à vela, e o melhor será senão servir ou encontrar outra coisa, ir para casa ou para um sitio semelhante para não interromper as rotinas.


Quanto custa? O IVA, as portagens, a gasolina, são ao mesmo preço e as dormidas e comidas são para todas as bolsas. O troço de auto-estrada entre Caldas da Rainha e Torres Vedras passando por Óbidos e ligando a Peniche é gratuitos mas não têm graça nem beleza e será melhor andar mais de devagar para poupar.


A ÁGUA, por agora, está em todo o lado e é de borla.

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