Meigas de Augas do Rio Miño


“Segundo a lenda, na zona do Miño que separa Arbo de Melgaço, as augas estaban habitadas por algo máis que peixes. Estes peculiares habitantes coñecíanse como feiticeiras e, din, eran moi fermosos. Capaz de abraiar aos mozos e levalos consigo ás profundidades.

Segundo a tradición, as feiticeiras interferían coa xente que cruzaba o Miño dun lado a outro, tanto se eran pescadores, barqueiros ou calquera tipo de persoa e condición e, por este motivo, "Quem travessar o Rio Minho en Melgaço ten que carry na boca um seixinho for durante a trip nao be able to falar so feiticeiras meterse con el ". (Leite de Vasconcelos 1931,70, en Alonso Romero F 1996,75). Noutras palabras, se querías cruzar o río de Arbo a Melgaço, era mellor levar unha pequena pedra na boca para que non puideses falar ". en blogspot Obrador de Lamprea

Apanhámos uma pedra do chão e saímos do alto dos espigueiros à beira do castelo de Lindoso à procura das feiticeiras que se escondem nas águas do rio Minho.

Chegámos ao lugar trans-fronteiriço de Cevide depois de subirmos e descermos serras e cabeços do Alto Lindoso.

É uma paisagem, que se não fora o verde, pareceria marciana de penhascos, pedras e pedregulhos cinzentos escuros, marcada aqui e lá longe por restos de cinzas.

Cevide guarda as últimas casas, o último posto fronteiriço e o último e primeiro marco geo-politico de portugal, o nº1.

Mas Cevide partilha também duas pontes, dois trilhos para caminhantes e muitas estórias vividas e fantasiadas por contrabandistas, emigrantes e refugiados.

Chegados ao pequeno largo, do sitio onde acaba a estrada vemos um homem com uma saca imensa às costas. Não se mexe. Está a subir uma vereda. Está cinzento como os granitos. É de pedra.

É uma estátua, em memória aos milhares que ali passaram ao cimo do beco da Caneja do Contrabando.

Atravessar ali o rio Trancoso era bem mais simples do que atravessar o rio Minho, não fora a forte presença da guarda ali e na aldeia de Acivido.

A vegetação galega e a vegetação portuguesa cumprimentam-se e quase se abraçam.

Na vereda e trilho da direita, Caminho do Posto, descemos até às azenhas que ficam na margem direita do rio Trancoso e aos socalcos escondidos, na margem esquerda, numa floresta que esconde uma agricultura de subsistência de outras gerações.

A ponte rústica de madeira une o lado de cá ao trilho Galego Camino do Ribeiro.

Mas para o outro lado do largo do sitio de Cevide, pela Caneija do Contrabando, fica outra ponte rústica de madeira

mas de design moderno e abraçando com simbologia as duas margens.

Nessas margens, frente a frente em pleno nada, de ninguém, mas com muita vegetação e água ficam dois monólitos cúbicos de granito.

O de cá diz P e o de lá diz E. São os marcos fronteiriços.

O de cá discreto junto a um passadiço de madeira na sombra do verde e o de lá num ermo ao sol com antenas e painel solar.

Ou falam muito, ou pelo silêncio ignoram-se.

A jusante, já a deságuarmos no rio Minho, procuramos as feiticeiras.

Não as vemos.

Subimos até à aldeia de São Gregório e dirigimo-nos ao posto da guarda a saber se as autoridades têm alguma pista delas.

Em São Gregório não é um posto que está lá, é quase um quartel. A casa da alfândega, três casas para os guardas e famílias e alguns anexos, todos construídos em bom granito, da cor das fardas dos guardas, mas tudo ssombrado desde o fim das fronteiras da UE.

Sobram além do escudo republicano esculpido na entrada, as paredes, alguns colchões, móveis, papéis velhos e o esquecimento incómodo e tranquilo da aldeia.

Ninguém ouviu falar das feiticeiras do rio Minho.

Apontamos então para uma localidade maior ali próxima, a ver se alguma outra autoridade sabe onde param as feiticeiras, pois que os Gps, os agentes 3G, 4G e Wifi também não dizem muito.

Aproximamo-nos da cidade de Melgaço e vemos rio abaixo grupos de jovens desafiando as feiticeiras de bocas abertas e gritando.

À entrada das muralhas encontramos o quartel da guarda e aí perguntámos …

Não é mais um quartel e a guarda foi embora.

O realizador francês Jean Loup Passek ofereceu o seu espólio da pré-história do cinema e, numa sublevação bem sucedida, um museu, ocupou o quartel.

Mas indicam-nos o Espaço Memória e Fronteira onde talvez nos possam ajudar.

Muitas histórias e poucas estórias. São as memórias dos milhares que cruzaram o rio, como pêndulos do contrabando, e a dos que foram sem nunca voltar por ali. Morreram ou emigraram.

“Aparecimento de Cadáver - Em 27 do mês findo, apareceu na Valinha, a boiar nas águas do Rio Minho, o cadáver de José Fernandes, mais conhecido pelo “Zé do Diabo”, de Penso, que uns quinze dias antes, quando pretendia passar uma pequena porção de café para a Galiza, foi abatido a tiro pelos carabineiros.”

O Zé do Diabo talvez não levasse uma pedrinha na boca nem de certo foi apanhado pela Lampreia Dourada.


“Em noites de lua cheia, na encosta do rio Minho em frente a Arbo, na parte portuguesa, os mais velhos contavam que era costume ver uma bela moura de longos cabelos dourados a acariciar um grande peixe, brilhante como se fosse todo ele de ouro, enquanto levantava a cabeça das águas do rio.”

A lenda conta que um tal Rui de Paderne uma noite foi tentar roubar o ouro da Lampreia e apareceu dias depois afogado na margem do rio com uma cara feliz e marcas no pescoço da mordedura de uma lampreia.


Mais a jusante na margem esquerda nos Prados de Melgaço, vemos cabras felizes, escutando música chillout de clássicos, recebendo massagens e oferecendo leite para queijos curados longamente em Alvarinho e outras artes gourmet.

Intriga-nos a persistência dessa beberagem de nome Alvarinho.

Vamos até à outra margem a Arbo, ou Arabo, muito citada nestas estórias, procurar pelas feiticeiras e pelo muito falado Alvarinho.

No caminho ao passar em Peso damos com um grande palácio das águas.

As águas das termas de Melgaço surgem do chão no meio da grande sala, sabem a ferro têm gás e não se parecem em nada com as suas irmãs engarrafadas.

Tão pouco são resultado de feitiçarias pois que foi um médico que curou a sua esposa e desde então, muitos para ali peregrinam saudavelmente.


En Arabo al Centro de Interpretación do Viño e da Lamprea en las tierras del vino del Condado de Tea estamos desencantados. Están pechados e non nos din nada.

Seguimos a estrada pola beira do río. Unha protesta silenciosa contra as liñas liñas eléctricas de alta tensión,

acompáñannos a un home medio deitado no outeiro con vistas ao val.

Acudimos a el para informarnos sobre a busca das feiticeiras ou meigas.

Unha vez mais! Non é un home, é unha estatua no miradoiro das Neves. Unha instalación de varias esculturas en ferro e pedra lévanos aos recordos e historias do río.

Na marxe esquerda máis río abaixo chama a atención unha fortaleza e entramos pola estreita porta do Rosal.


Ao atravessarmos o túnel da muralha encontramos a cadeia.

Com um ambiente de nave espacial numa caverna românica fazemos uma Viagem No Tempo em 4D pelo Alto Minho e ficamos a conhecer mais da cultura e da vida dos castros celtas. Talvez, a origem pagã das feiticeiras que buscamos.

Na mesma vila vamos à casa do falado Alvarinho que ajuda a envelhecer os bondosos queijos de cabra dos prados de Melgaço.

Pirilampos dentro de centenas de garrafas iluminam a exposição de vários painéis em várias salas, num palácio que já foi residência de muitas famílias pode-se agora cheirar cada um dos aromas, de mel, de citrinos, de verdes, dos muitos Alvarinhos.

Mas feiticeiras, nada. Talvez só os seus cheiros e algum sabor.

Numa conversa de café aconselham-nos a visitar o museu do rio mais a jusante no Castelinho de Cerveira, onde têm muitos peixes que talvez as tenham visto.

De caminho ao passar em Lovelhe as pessoas balançam-se,

passeiam e conversam a olhar o rio, que agora mais parece um lago tranquilo.

Balouçando como um nenúfar sobre a água flutuam cobras coloridas de uma peça da Bienal de Artes que parece, mas não é, um feitiço

Chegados ao Aquamuseu do rio um surpreendente parque aquático tem a água fechada.

Tememos pelos peixes. Mas, estavam todos bem apesar de um pouco agitados por várias adversidades como, a pesca furtiva, a poluição e os novos e muito procurados vizinhos como as perca-sole as achigãs. Dos salmões brancos pouco se recordam e só os mais velhos deles falam e das Lampreias esperam que regressem no próximo inverno.

Feiticeiras ? Nada !

Tiveram tempo para dar atenção à nossa procura mas, nada puderam ajudar para além da simpatia.

No cimo do monte um veado, parado e muito admirado pelos viajantes, parecia aguardar-nos. Subimos até ele.

De curva em curva e sempre a subir passámos pelo tecto das nuvens e ficámos ao sol em cima delas.