Aldeia das Dez

40º17'40.13''N 7º51'53.73''W

Durante a reconquista cristã dez mulheres terão encontrado nas encostas do Monte Colcurinho um tesouro em moedas Antonini cunhadas em prata, do século terceiro do império romano.

Perante tamanha fortuna, resolveram dividir entre elas o tesouro, e de geração em geração muitos herdeiros terão guardado ou gastado até hoje, só ficando a lenda de tamanha fortuna.

A rua principal que atravessa todo o casario da Aldeia das Dez, numa encosta do Monte Colcurinho, para os lados de Oliveira do Hospital chama-se de Rua dos Douradores e muitas mais ruas com nomes de artífices não faltam.

Mas ouro, artesãos ou gente não se vê e crianças menos ainda.

Caminhando nas sombrias vielas encontramos uma grande casa.

Um ilustre sargento-mor, do reinado dourado de Dom João V, casado com uma senhora de uma respeitada família da Aldeia mandou-a construir mas, agora só restam de pé as paredes do solar oitocentista.

Nesses anos do rei "por direito divino", muito ouro chegava do Brasil, o estado arrecadava um quinto dele, construía o Palácio de Mafra e a igreja fazia cumprir a fé e os hábitos pela mão da Inquisição.

É mais uma aldeia no meio das Aldeias de Xisto.

Estas casas tal como o solar foram firmemente levantados em alvenarias de granito.

Talvez que algumas casas tenham sido habitada por marranos ou cripto-judeus a quem era negado a posse de terras e se teriam dedicado a outras actividades, mesmo depois de se converterem como cristãos novos.

No largo principal uma placa num miradouro de Santo António celebra a chegada da iluminação pública às ruas da aldeia, a carbureto que não ainda a eléctrica, na véspera do natal de 1922.

Do lado contrário sem cerimónias e bem assinaladas estão duas vetustas peças de mobiliário urbano que, para quem ali vive, passa e não liga e para quem visita o sitio nem se acredita.

O abandono e despovoamento evidente da Aldeia ilumina-se como algumas candeias de alojamentos turísticos e hotéis ali e ao seu redor.

O apreço dos hóspedes fica em comentários como, "fantástico", "fabuloso" a crer nas opiniões deixadas na net pelos que ali pernoitaram.

Os novos turismos de habitação, rural e outros de tipo "criativo", esforçam-se por repovoar a solidão e o isolamento. Mas vida, de verdade, resta pouca e poucos.

De madrugada um residente abordou-nos e pediu desculpa do muito vento que se fazia sentir e explicou que antes dos fogos de 2017 as muitas árvores não deixavam o ar correr tão depressa.

Na subida para Aldeia das Dez um largo e um obelisco assinalam esse verão trágico.

Vários sobreiros, castanheiros e nogueiras centenárias ostentam-se mortos, nus e hirtos resistindo aos ventos depois do fogo no final desse verão.

Sem pressas, os que deixaram passar a oportunidade, de dali saírem, vêem o verão voltar e em algumas ocasiões os migrados regressar sem muita esperança de os voltar. a ver.

A Aldeia das Dez fica de caminho da Ponte das Três Entradas sobre os rios Alvoco e Alva para a capela da Senhora das Necessidades no alto do Colcurinho.

Por agora a ponte, também sem pressas, deixa entrar tantos quantos querem sair.

Lá para o verão, ou para quem lá não mora, um dia, devagar, será diferente.


inté...

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